O papel do mainframe costumava ser relativamente fácil de explicar: processar e registrar transações críticas com segurança, disponibilidade e escala. Bancos, seguradoras, varejistas, governos e grandes empresas construíram sobre ele aquilo que a indústria passou a chamar de system of record.
Esse papel não desapareceu. O que mudou foi o que o restante da empresa espera desses dados.
O State of Mainframe Modernization 2025, da Kyndryl, ouviu 500 líderes de negócios e tecnologia e encontrou um cenário menos linear: 80% das organizações mudaram sua estratégia de modernização nos últimos 12 meses.
Ao mesmo tempo,56% aumentaram o uso do mainframe, enquanto a parcela média de aplicações planejadas para sair da plataforma caiu de 36%, em 2024, para 28% em 2025.
A discussão sobre inteligência artificial no mainframe costuma começar no lugar errado. Fala-se em geração de código, tradução automática e copilotos. Tudo isso importa, mas não resolve o problema central: ninguém consegue entender completamente o que já está rodando.
O mercado trata a escassez de profissionais de mainframe como um problema inevitável. Uma consequência natural de uma tecnologia “antiga”, difícil de aprender e distante das novas gerações. Essa leitura é confortável e, na maioria dos casos, está errada.
O problema não é a falta de interesse. É a experiência.
A modernização de mainframe raramente falha por falta de tecnologia, mas por excesso de suposição. Em ambientes de missão crítica, não basta validar se algo funciona, é preciso garantir que vai continuar funcionando sob carga real, com dados reais e dependências reais.
É nesse ponto que a diferença entre testes emulados e testes reais deixa de ser técnica e passa a ser uma decisão direta sobre risco operacional.
A modernização de mainframe costuma ser vista como um projeto de longo prazo, com retorno diluído e risco elevado. Para CFOs e CTOs, isso criou uma percepção recorrente: modernizar é necessário, mas o impacto financeiro demora a aparecer.
O problema é que essa leitura parte do lugar errado. O maior custo não está na transformação em si, mas no que sustenta o ciclo de desenvolvimento hoje.
A maior parte das pessoas nunca vai pensar sobre o que acontece entre um Pix enviado e um Pix recebido e esse é justamente o ponto. Existem tecnologias criadas para aparecer e outras cuja missão é impedir que o mundo pare.
O mainframe sempre pertenceu ao segundo grupo. Ele não está no feed, não vira tendência, não entra em debates sobre “o futuro da tecnologia”.
Por anos, a operação em mainframe foi organizada em torno de uma premissa simples: o dia processa, a noite consolida. A janela batch era o momento de fechamento, reconciliação e reorganização do sistema. Esse modelo funcionou, até o volume deixar de respeitar o relógio.
Hoje, com Pix, Open Finance e aplicações disponíveis 24 horas por dia, o processamento não desacelera. Ele continua crescendo enquanto a janela desaparece.
Por muito tempo, a estratégia dominante de segurança foi proteger o perímetro da infraestrutura. Firewalls, redes segmentadas, controle de acesso. Camadas externas tentando proteger algo que, no fundo, continua vulnerável na sua própria arquitetura. Esse modelo não se sustenta mais.
O cenário bancário e de pagamentos no Brasil enfrenta um paradoxo crítico. Enquanto o volume de interações digitais atinge recordes históricos, a rentabilidade por transação sofre uma erosão silenciosa. A assimetria digital não é apenas um desafio técnico, é um fator de degradação direta da margem operacional.










