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José Ronaldo Martins: o fundador que nunca deixou de ser aprendiz
Date 14 Aug 2026

Era tarde demais quando Ronaldo percebeu que a “tesourinha nervosa” de Aline tinha feito uma nova vítima.


Quando a filha ainda era bem pequena, ele descobriu que uma das edições da revista ‘Ciência Hoje’ havia sido completamente picotada pelas mãozinhas infantis.


Não havia muito o que reclamar. A culpa não era dela.


Em casa, existia uma regra de que tudo o que ficava em determinado compartimento da mesa podia virar brinquedo. Naquele dia, por distração, uma revista recém-chegada foi parar justamente ali.


Ele ainda nem tinha lido! Precisou sair para comprar outra.


A coleção, no entanto, permanece intacta décadas depois. Durante quase vinte anos, Ronaldo foi assinante da revista e guarda até hoje os exemplares cuidadosamente encadernados em casa. 


Elas são o registro e a personificação de um hábito que José Ronaldo Martins nunca abandonou: estudar.


Quem o conhece costuma associá-lo imediatamente ao mainframe, ao COBOL, aos produtos da Eccox ou às discussões técnicas que atravessam décadas de evolução da computação corporativa. 


A característica que melhor o define, no entanto, é outra. Ronaldo nunca deixou de ser um aprendiz.


Aline cresceu. Assim como Rodrigo, o filho mais velho. Ao lado da esposa, Zilda (com quem Ronaldo divide a vida há mais de quatro décadas), eles acompanharam de perto uma rotina em que curiosidade e trabalho nunca andam separados.

Curiosidade disciplinada


Ainda adolescente, enquanto muita gente ocupava o tempo livre com esporte ou outras distrações, ele preferia os livros.


"Sempre fui um cara bem nerd. Hoje em dia o pessoal chama de nerd, antigamente tinha outros nomes. Ficava estudando, não jogava futebol, não praticava esporte, não fazia nada, né? Só me enterrava nos livros".

Formou-se em Eletrotécnica na Escola Técnica Federal de São Paulo, cursou Física na USP e chegou a trabalhar com proteção radiológica, fiscalizando ambientes onde eram produzidos radiofármacos distribuídos para hospitais de todo o país.


“Radiação não tem cheiro, não tem cor, não esquenta, não esfria. Você não sente nada. Mas ela está agindo”, lembra.


Pode ter sido ali que desenvolveu um olhar que o acompanharia pelo resto da vida: a atenção às estruturas invisíveis, àquilo que sustenta sistemas complexos sem que quase ninguém perceba.


Foi esse mesmo olhar que, anos depois, o levou à programação.


Depois de um longo processo seletivo na Prodesp, ingressou como programador em uma época em que computadores pessoais ainda estavam longe de fazer parte da rotina das empresas brasileiras.


Com o tempo, começou a se aproximar de um tipo de problema que o fascinava cada vez mais: aqueles que exigiam entender o funcionamento interno das plataformas, muito além da interface que os usuários enxergavam.


Era um perfil pouco comum.


“A gente sempre fazia umas coisas meio loucas na programação”.

Ao longo da década de 1980, passou por órgãos públicos, bancos e grandes empresas, até conhecer Maurício da Costa e Silva. Os dois rapidamente descobriram que compartilhavam a rara característica de gostar, justamente, dos problemas que os outros evitavam.


Não demorou para que começassem a ouvir a mesma recomendação de colegas e clientes: “Passa pra eles”.


Eles não eram necessariamente os mais rápidos ou nem ofereciam a solução mais barata, mas porque havia desafios que poucas pessoas sabiam sequer por onde começar.


No início dos anos 1990, um desses problemas acabaria mudando suas vidas.


Enquanto trabalhavam durante o dia, Ronaldo e Maurício atravessavam São Paulo todas as noites para desenvolver uma solução técnica que o mercado ainda não oferecia. Viraram clientes conhecidos da pizzaria do caminho e passaram incontáveis madrugadas programando em máquinas emprestadas, até que, em fevereiro de 1992, fundaram oficialmente a Eccox.


Não havia investimento, aceleradora ou plano de negócios desenhado em apresentações. Havia um problema e dois engenheiros convencidos de que ele podia ser resolvido.


O primeiro produto refletia exatamente essa origem. Chamava-se ShareVSAM e resolvia um gargalo bastante específico do universo mainframe: permitir que processos online e rotinas batch compartilhassem atualizações em arquivos críticos mantendo a integridade das informações. 


“A gente fundou a empresa basicamente para vender esse produto. Depois foram aparecendo outras loucuras”.

Era um software tão discreto que praticamente ninguém via seu funcionamento. Não tinha telas sofisticadas nem relatórios elaborados. Atuava abaixo da superfície, justamente onde os problemas costumam nascer.


Ronaldo lembra de uma reunião com uma agência de marketing, quando tentava apresentar o produto.


“O cara falou: ‘Mas você tem umas telas, uns relatórios?’ Respondi: ‘Não, não tem nada. Ele trabalha por baixo dos panos. O máximo que eu tinha era um log dizendo: abriu, fechou, abriu, fechou… Funcionou. Só isso’”.


Como vender um software cujo maior mérito era passar completamente despercebido?


34 anos depois, a empresa continua especializada justamente naquilo que pouca gente enxerga: as camadas profundas da infraestrutura que mantém aplicações críticas funcionando sem interrupção.

O oráculo da casa


Mais do que uma empresa, nasceu uma maneira de trabalhar: enfrentar problemas difíceis sem atalhos, entendendo profundamente o funcionamento das tecnologias antes de propor qualquer resposta.


Essa filosofia continua presente mais de três décadas depois.


Hoje, quando alguém entra na Eccox e precisa desvendar um desafio particularmente complexo, há boas chances de ouvir a automática recomendação: “conversa com o Ronaldão”.


Atualmente como Chief Enterprise Architect, Product Owner e diretor de Pesquisa e Desenvolvimento, ele continua fazendo aquilo que sempre fez: estudando. 


“Eu sou extremamente técnico. Para mim é fácil pesquisar essas coisas porque estou nesse caminho há quase cinquenta anos. Volta e meia estou lendo alguma coisa, pesquisando, vendo o que mudou”.

É ele quem mergulha nas evoluções do ecossistema IBM, pesquisa novas tecnologias, desafia hipóteses, participa das discussões técnicas mais delicadas e ajuda a transformar conhecimento em produtos que sustentam operações críticas de alguns dos maiores bancos do país.


Ao longo desse percurso, participou da reestruturação do Eccox APT, liderou projetos estratégicos, ajudou a formar gerações de profissionais da empresa e recebeu, em 2024, o Mainframe Masters Recognition, homenagem concedida a profissionais que marcaram a história do ecossistema de mainframe. Para quem conhece Ronaldo, o troféu é um mero detalhe.


A edição recortada da ‘Ciência Hoje’ acabou sendo substituída. A curiosidade, não.


Ela continua ocupando espaço nas estantes, nas conversas técnicas, nos grupos de discussão, nas pesquisas que antecedem novos produtos e na maneira como Ronaldo encara cada problema difícil que aparece pela frente.


Depois de mais de quatro décadas de profissão, ele continua parecendo exatamente o mesmo garoto que preferia ficar estudando enquanto o resto do mundo estava fazendo outra coisa.


Esse é o jeito mais honesto de resumir quem é José Ronaldo Martins, já que diz mais sobre ele do que qualquer organograma. Depois de tantos anos, ele continua fazendo exatamente a mesma coisa: aprendendo.


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